domingo, 8 de abril de 2012

Análise: Ninja Gaiden 3



Distribuidor: Tecmo
Programador: Team Ninja
Plataforma: PS3 – Xbox 360 - WiiU
Por Marcelo Faria - Outer Space
Fonte: Outer Space

Ninja Gaiden 3 é o primeiro jogo da série principal sem a direção de Tomonobu Itagaki, o excêntrico desenvolvedor japonês que deixou a Tecmo e ainda processou a empresa exigindo bônus que não foram pagos. Com o comando de Yosuke Hayashi, que é o responsável por Ninja Gaiden Sigma e sua sequência, a expectativa era de muita mudança na nova aventura de Ryu Hayabusa, o ninja moderno com sede de sangue e poderes misteriosos.

Mas assim como existem mudanças que vêm para melhorar, outras não são tão bem vindas. Ninja Gaiden 3 é um bom exemplo disso: na ânsia de criar o melhor jogo da série, Hayashi e a Team Ninja podem ter feito exatamente o contrário.

Sanguinolência tediosa

O protagonista em Ninja Gaiden 3 segue sendo Ryu Hayabusa, o ninja amaldiçoado, que agora passa seu tempo livre como uma espécie de super-herói anti-terrorista. O enredo é um pouco diferente dos dramas passados que apelavam para muito nonsense japonês e misticismo. Dessa vez, o roteiro é mais simples e ao mesmo tempo mais açucarado, com uma tentativa engraçada dos criadores de tentar aprofundar na personalidade do protagonista, mas com diálogos pobres e desinteressantes, que contam mal uma história que não é fácil de engolir. Acontecimentos e inimigos bizarros continuam existindo, mas de um jeito bem diferente do que foi visto no resto da série. E para a maior parte das pessoas, é um jeito pior, mesmo considerando que a história nunca foi o forte de Ninja Gaiden.

A história fraca pode ser ignorada, mas acontece que o verdadeiro ponto forte de Ninja Gaiden -- a pancadaria -- também ficou pior neste terceiro jogo. Sim, o jogo está consideravelmente mais fácil, mas não são só os veteranos sádicos da série que vão choramingar pelas mudanças nos combates. A fama de Ninja Gaiden era de ser um jogo bem fatal, em que até mesmo inimigos fracos podiam facilmente aniquilar o jogador se uma estratégia equivocada fosse utilizada. Ao final de cada combate, suspiros acompanhavam uma sensação de recompensa, que geralmente só acontecia após um pouco de tentativa e erro. No novo Ninja Gaiden não é assim. Basta apertar muitas vezes um mesmo botão de bater para finalizar todos os inimigos em uma área e partir para a próxima chacina, sem ressentimentos.

O problema não é só a questão da dificuldade. Mesmo colocando no nível mais elevado, em que as coisas ficam realmente mais complicadas e as derrotas acontecem com frequência, em Ninja Gaiden 3 o que faz falta é a profundidade na jogabilidade. Como dito, ao invés de quebrar a cabeça com estratégias mirabolantes e proezas ninja, aqui não há muito para ser feito além de atacar repetidamente os inimigos. Para se ter ideia, enquanto antes existiam diversos tipos de armas e ataques ninpo, Ryu agora se vira com só uma arma e um único ninpo, que usa mecânica nova, porém nada inovadora, em que o jogador enche uma energia especial que é usada para desferir um golpe avassalador em que Ryu se transforma em um dragão oriental e devasta a tela. Visualmente interessante pela primeira vez, mas um pouco chato depois da terceira.

Se a ideia era atingir um público maior e ir além dos gamers hardcore que curtiam a obra de Itagaki, a Team Ninja simplesmente confundiu jogabilidade acessível com jogabilidade boba. Existem inúmeros exemplos de jogos que conseguem ser simples para um iniciante, mas ficam complexos com o tempo e criam uma curva de aprendizado orgânica. Em Ninja Gaiden 3 não há curva, mas uma reta estabelecida na mediocridade.

O problema é agravado porque além de faltar variedade nas formas de bater, também falta variedade no que bater. A maior parte dos inimigos normais são parecidos e não demora para o jogador aprender o padrão de luta deles. A exceção são os chefões, que em raros momentos conseguem variar um pouco o jogo e proporcionar um desafio interessante com visuais interessantes, como é o caso do “robô dinossauro gigante” que Ryu despedaça. Mas até isso fica repetitivo, já que o modelo dos chefões é reciclado mais de uma vez durante a história. E mesmo essas boas e raras lutas são atrapalhadas por uma câmera complicada que, em um esforço exagerado pelo “melhor ângulo”, fica trocando a visualização nos momentos mais importante e confundindo um pouco o jogador.

Decisões erradas

Existem jogos que falham por serem feitos sobre orçamentos inadequados. Outros por falta de capricho ou talento da equipe técnica. E existem aqueles em que o principal problema são decisões erradas. É o caso de Ninja Gaiden 3. Aqui não existe um descaso da equipe técnica, já que bugs são raros e a jogabilidade, ainda que limitada, flui bem e responde corretamente aos comandos do jogador. A trilha sonora é adequada, assim como a dublagem. E os gráficos, ainda que não sejam o auge da tecnologia dos consoles, são ótimos, com uma direção de arte que desenvolve conceitos visuais interessantes no design de personages, ambientes e, principalmente, inimigos.

Mas todos os méritos do Team Ninja são prejudicados por escolhas erradas, como a orientação por uma jogabilidade exageradamente simples ou uma história sem graça. E o modo multiplayer é mais uma dessas decisões ruins. Qualquer que tenha sido o esforço ou investimento gasto neste modo, ele seria melhor empregado na evolução da jogabilidade básica. Existe um modo de desafios cooperativos que seria muito bom se os combates fossem um pouco mais profundo, mas na maior parte das vezes acaba sendo ainda mais fácil e desinteressante vencer inimigos com a ajuda de um amigo. Existe um pouco de diversão no coop, mas nada muito duradouro, e em pouco tempo o jogador e seu bravo ajudante tentarão algo mais interessante… Que certamente não será o modo competitivo, que consegue ser ainda mais sem graça. A facilidade em atacar e acertar os adversários, graças à mira automática, é algo que incomoda na campanha, mas no multiplayer elimina boa parte da graça de superar um adversário. Acaba que ganha quem começou a apertar os botões de ataque antes, resultando em uma experiência desagradável tanto para o vencedor quanto para o derrotado.

Ninja Gaiden 3 é diferente dos seus antecessores em muita coisa, mas não peca por essa tentativa de se renovar. O que faz deste jogo algo abaixo da média são escolhas estranhas do Team Ninja, como a simplificação exagerada do combate, que ficou quase automático, fácil demais e extremamente repetitivo em níveis mais avançados. Avacalhar a pancadaria, o principal pilar de um jogo de ação, seria o suficiente para arruinar Ninja Gaiden 3, mas uma história mal-contada e bem água com açúcar, além de um multiplayer dispensável, deixam tudo ainda pior. Alguns chefões são visualmente interessantes e até divertidos de enfrentar, quebrando um pouco a monotonia, mas a superficialidade da jogabilidade faz da nova jornada de Ryu Hayabusa um grande tédio.

Prós
Contras
- Conceitos visuais interessantes;
- Robô dinossauro gigante;
- Algumas lutas contra chefões têm potencial.
- Jogabilidade simplória e repetitiva;
- História mal-contada bem difícil de engolir;
- Câmera ruim;
- Multiplayer infeliz.

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